Rosa Abaliac

Conviver Bem

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Psicoterapia

Olá! Ainda existem muitas fantasias e receios das pessoas sobre o processo terapêutico. Neste texto irei esclarecer – resumidamente – as dúvidas mais frequentes, a começar pela mais básica de todas: Afinal, o que vem a ser psicoterapia?

É um tipo especial de relacionamento interpessoal com regras próprias, com suas limitações de horários e local, com suas inúmeras técnicas e sempre baseada em uma teoria. Como tal, exige que paciente e terapeuta estejam disponíveis e abertos para esse encontro.

O primeiro ponto para se decidir por esse tratamento é o desejo de fazer terapia. E vale ressaltar que o desejo tem que ser seu. Com exceção das crianças – que em geral são trazidas pelos pais – e com exceção de algumas patologias, é impossível tratar quem procura ajuda simplesmente para agradar alguém ou por indicação de um profissional, mas não deseja de fato ser tratado. Temos que nos atentar para o fato de que a terapia só terá função em nossas vidas se realmente desejamos vivenciar este processo, ou seja, é necessária uma implicação pessoal.

Bom, depois desta decisão surgem outras dúvidas: “Como escolher o terapeuta?” “Qual é a melhor abordagem?” É natural que as pessoas que já conhecem a psicologia se identifiquem mais com determinada abordagem. Entretanto, ouso dizer que a escolha do psicólogo sobrepõe a do método, pois o terapeuta é em si um método.

Uma fantasia que existe no imaginário social é a de que psicólogo(a) não pode ter defeitos. Há pessoas que gostam de endeusar outras e, quando percebem que todos(as) possuem limitações inerentes a sua condição humana se decepcionam: “se ele próprio tem problemas, como é que vai curar alguém?”. Em outros momentos, o(a) psicólogo(a) é temido pelos seus supostos super poderes: “como advinha meus pensamentos?” Há ainda quem ache que o(a) psicólogo(a) tenha que ter vivenciado de alguma forma as demandas que atende. Segundo esse raciocínio limitante, para atender casos de vícios em drogas, por exemplo, o(a) terapeuta ou alguém da sua família teria que ter tido problemas com drogas; para atender um casal o profissional teria que ser casado e por aí vi. Obviamente não é o fato do(a) psicólogo(a) ter passado por experiências semelhantes aos dos pacientes que o torna um bom profissional.

Mas o que o torna bom? O que esperar dele? Em primeiro lugar, que tenha um profundo respeito pelo ser humano e seja capaz de analisar cada indivíduo na sua particularidade. Desde a primeira sessão, você deve se sentir acolhido e confortável (ainda que comece sua fala por assuntos desconfortáveis). Deve sentir que o(a) psicólogo(a) tenha interesse real pelo que você está falando só assim ele(a) estará autorizado para te ajudar.

É recomendável que este profissional sustente sua prática pelo famoso tripé: supervisão – estudos teóricos – terapia ou análise pessoal. Ele não é um modelo a ser copiado, mas dependendo do caso pode ser uma referência. É através da escuta atenta do(a) terapeuta que o paciente criará condições para arcar com o seu desejo.

Outra dúvida é em relação à duração do tratamento. Alguns receiam que seja interminável, no entanto, a duração está relacionada com a necessidade do(a) paciente, ou seja, até que se sinta pronto para finalizar. O processo do desligamento em alguns casos pode ser mais longo que outros, pois depende do vínculo estabelecido com o(a) psicólogo(a).

Sabemos que iniciar uma psicoterapia não é uma decisão fácil, pois investe-se tempo, dinheiro e energia psíquica. Podem surgir sentimentos de fracasso do tipo: “Onde eu errei?” Entretanto, o que constato é que a maioria  que opta por este tratamento, são pessoas com recursos internos para solucionar sua problemática; elas se sentem insatisfeitas porque no fundo sabem que poderiam estar melhor. Quem está disposto a se desenvolver/trabalhar suas questões, tem a coragem suficiente para começar o processo justamente porque acredita no seu potencial de transformação.

Entretanto, nas primeiras sessões é comum que as queixas sejam endereçadas à família, ao cônjuge, ao chefe, aos traumas de infância, à má sorte… Alguns acreditam serem injustiçados, vítimas da vida e, portanto, dizem estar impotentes a respeito da desordem na qual se encontram. Diante disto, qual a contribuição da psicologia?

Fazer psicoterapia não é apenas “se conhecer profundamente”, é muito, muito mais… É ter o discernimento de saber o que é o meu desejo e o que achava que era meu desejo, quando na verdade era de um outro. É aprender a lidar com os “fantasmas da mente”. É permitir que os traumas inconscientes apareçam e sejam trabalhados. É perceber que, por mais paradoxal que seja, a queixa também é útil. É se implicar no próprio sintoma e desatar alguns nós sintomáticos. É descobrir o texto enigmático do discurso que repetimos inúmeras vezes. É perceber que toda repetição (seja de discurso, de comportamento, de sintoma) acontece por algum motivo. Enfim, é tomar as rédeas da própria vida, o que não é pouco!